quarta-feira, novembro 28, 2007

Sicko






“O seu novo Serviço Nacional de Saúde começa a 5 de Julho. Ele irá fornecer-lhe todos os cuidados médicos, dentários e de enfermagem. Qualquer pessoa, rica ou pobre, homem, mulher ou criança pode utilizá-lo, qualquer parte dele. Não tem custos, a não ser para alguns casos especiais, não há obrigações de seguro, mas não é uma caridade. Será pago pelos contribuintes e irá aliviar as suas preocupações financeiras em tempos de doença."
5 de Julho de 1948, data da criação do Serviço Nacional de Saúde no Reino Unido.

Sicko é eficaz na exposição dos podres de um sistema de saúde tornado cativo das seguradoras.

Este documentário vale por essas histórias de vida, arrepiantes, de gente que tem seguro e se julgava segura em caso de doença.

Michael Moore, ao contrário do que poderíamos supor, não se centra nos “cinquenta milhões americanos” que não têm seguro de saúde, mas sim naquela imensa maioria da classe média que o tem.

A doença é sempre causa de sofrimento. Mas o que dizer se, para além de tal infortúnio, o doente e os seus familiares ainda são confrontados com os custos dos tratamentos não cobertos pela companhia de seguro, à laia de cláusula oculta ou de uma qualquer pré-condição? Então a vida passa a ser pesadelo. Sim, para muitos americanos, a doença vem acompanhada do aumento dos prémios de seguros, de insidiosas investigações à sua história clínica por parte de peritos cuja missão é nelas encontrar falhas ou omissões que conduzam ao cancelamento dos contratos ou à retirada dos benefícios a que os clientes tinham direito. É um mundo em que os médicos mais recebem quanto maior for a taxa de recusa dos pedidos de tratamento interpostos pelos clientes; são certamente os prémios de desempenho, na novilíngua empresarial das seguradoras. Há o testemunho, perante o Congresso dos Estados Unidos, de uma médica da Humana que confessa ter causado a morte de um homem, ao ter lhe indeferido o pedido de financiamento de cuidados médicos; tudo em nome do lucro da companhia.

Depois de uma primeira parte feita de uma montagem de testemunhos numa linguagem narrativa que diríamos mais próxima do registo televisivo do que cinematográfico, Moore lança-se num périplo por países com sistemas de saúde de cobertura universal, casos do Canadá,do Reino Unido ou da França. E aqui o seu discurso altera-se, passando a assumir o tom de um panegírico, em que desfilam apenas as boas coisas daqueles sistemas e nem sombra das listas de espera. Evidentemente que Moore está a contrastar, visto este documentário ser também uma peça da luta política em curso nos EUA por um outro sistema de saúde, certamente mais generoso na sua cobertura (e há candidatos presidenciais que estão na primeira linha desse combate, como é o caso de Obama). Mas no essencial o cineasta tem razão: a balança pende claramente para o lado do Canadá e daqueles países europeus, cujos indicadores da mortalidade infantil e da esperança de vida são bem melhores do que os dos Estados Unidos, pouco mais do que medíocres no contexto dos países desenvolvidos. Mesmo Portugal, cujo serviço nacional de saúde de cobertura universal é talvez a grande realização da democracia, consegue nestes indicadores ter uma prestação superior à do sistema americano. E no entanto os Estados Unidos são provavelmente o país que mais contribui para o avanço da medicina. Talvez o cerne da contradição resida no primado do lucro, num país que parece ter submetido a saúde dos cidadãos ao diktat das companhias de seguros (cada vez mais se assemelham a realidade orwellianas).

O filme termina em Cuba. Emerge o Moore agent provocateur, numa pequena embarcação ao largo da base de Guantánamo, clamando por tratamento médico para alguns voluntários das operações de salvamento do Onze de Setembro. Tratamento médico igual ao que recebem os terroristas aí encarcerados. Depois, o ecrã a negro e a Cuba de Castro, onde os voluntários excluídos do programa federal de apoio médico vão conhecer as virtudes do sistema de saúde cubano. Também de cobertura universal. Também gratuito.

É um documentário politicamente implicado, como não podia deixar de ser em Moore, alicerçado numa montagem de eventos muitos eficaz e que revela perfeitamente a mensagem que o realizador iconoclasta quer fazer chegar ao público, principalmente ao público americano. As analogias com recurso à Guerra das Estrelas e a filmes da propaganda soviética foram muito bem engendradas. Não há lugar para a neutralidade, que é a mais da vezes uma ilusão. Qualquer documetário implica escolhas que enformam o discurso. E o bom documentário não tem necessaria/ de partir de premissas neutras. Muito pelo contrário, basta olhar para a história deste género fílmico.

P.S. Ranking dos sistemas de saúde, OCDE.